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Director da Faculdade de Letras teme que 2012/2013 "não seja um ano bom"
Diário de Coimbra   
09 August 2012
A Faculdade de Letras gera receitas próprias?

Carlos André - É a segunda faculdade da Universidade de Coimbra que mais receitas próprias gera, em prestação de serviços especializados e em projectos que geram receitas próprias. Temos uma enorme dinâmica em várias áreas, que são hoje geradoras de receitas. Fazemos muitos serviços para o exterior.

Que tipo de serviços?
Fizemos muitas cartas educativas na região Centro do país. Contactámos com autarquias e fizemos as cartas educativas. Depois de feitas, começámos a fazer um trabalho para o Ministério da Educação que passou por fazer a junção dessas cartas educativas. As cartas educativas por município valem o que valem e não dão uma imagem de conjunto. Depois, o Ministério tem de trabalhar sobre o mapa de conjunto das cartas, pois aqueles mapas parcelares têm de dar origem a um mapa global. Estamos, neste momento, a fazer um serviço para o Ministério da Educação nesse domínio. Também trabalhámos para o Ministério da Educação a fazer um estudo que levou às opções do ponto de vista do ensino particular e cooperativo.

Mas não trabalham apenas para o Ministério da Educação?
Temos trabalhado muito para o Ministério da Saúde. Desenvolvemos muito estudos de carácter arqueológico e de musealização em vários sítios. Um dos mais significativos que temos está a decorrer em Beja, temos um outro em Bragança e trabalhámos com Montemor. Temos um papel activo na Rede de Castelos do Mondego. Estes são projectos que envolvem, essencialmente, a Arqueologia, a História e a História de Arte. Trabalhamos com rotas de escritores, colaboramos na realização de estudos de carácter cultural para as autarquias com vista à candidatura a fundos estruturais, desenvolvemos projectos para o iTunes, trabalhamos muito com o Estado e leccionamos Português para estrangeiros, que é uma actividade geradora de receitas.

Há muitos estrangeiros interessados em aprender Português?
Batemos, este ano, todos os recordes dos últimos anos, no que diz respeito ao número de alunos estrangeiros a frequentar a nossa faculdade no curso anual e no curso de férias, que está a acabar. Também ensinamos Português a estrangeiros sob encomenda. Há empresas privadas que nos pedem cursos de Português. Estamos a alargar a nossa actividade para fora do país. Estamos com uma actividade intensíssima em Timor no ensino de Português como segunda língua. Temos aqui um vasto leque, que ainda está no começo e tende a aumentar no sentido da prestação de serviços em várias áreas. A faculdade tem muitas possibilidades em várias áreas e enormes potencialidades e temos de saber descobrir, em cada momento, a janela de oportunidade. Nos últimos anos, temos feito isso activamente. Temos um gabinete a trabalhar especificamente nisso e tenho um sub-director que se ocupa inteiramente com essa questão.

Encontrar receitas próprias foi o caminho encontrado para lidar com os cortes orçamentais?
Se considerar todas as actividades que estamos a desenvolver, podemos ultrapassar um milhão de euros em cada ano de receitas próprias. Significa que já estamos a dar um contributo considerável às nossas necessidades financeiras. Essa questão é importante, mas importa também dizer que com estas acções colocamos em actividade os nossos licenciados e, às vezes, os nossos estudantes. Fazemos aquilo a que se chama transferência de saber.

A formação de professores deixou de ser prioritária?
Continuamos a honrar o nosso passado no que respeita à formação de professores, mas, decididamente, posso afirmar que a formação de professores não é, neste momento, o centro da nossa actividade. O mercado, no que diz respeito à formação de professores, é muito limitado e não podemos deixar de ser sensíveis a essa realidade. Se ficássemos por aí, acabávamos por sucumbir. Tivemos de encontrar novas soluções.

O próximo ano trará novidades na oferta formativa?
Haverá sempre mudanças, sobretudo em relação aos 2.º e 3.º ciclos, mas temos de estabilizar a nossa oferta formativa. No que toca ao 1.º ciclo, ou seja, à licenciatura, não há nenhuma alteração. No que toca ao 2.º ciclo, eventualmente, pode surgir uma ou outra novidade. No que respeita ao 3.º ciclo, a situação não se altera muito. Progressivamente, va mos introduzir um ou outro curso novo, mas o mais importante, depois da mudança que fizemos com Bolonha, é estabilizar a oferta formativa.

Que perspectiva tem a Faculdade de Letras em relação ao número de vagas dos cursos para 2012/2013?
Se repetirmos o que aconteceu no ano passado, preenchemos todas as vagas. Não posso esconder que 2012//2013 é um ano de muita apreensão. Dada a situação do país, receio que os alunos não adiram tanto à formação de Ensino Superior porque custa dinheiro às famílias que já estão demasiado endividadas e isso vai reflectir-se no que toca aos mestrados e doutoramentos. É uma das minhas preocupações. Tenho medo que 2012//2013 não seja um ano bom.

O pessoal não docente e docente da faculdade é suficiente para as exigências?
É uma questão que não é linear, ou seja, do ponto de vista do pessoal não docente, estamos, depois de duas ou três dezenas de aposentações, a atingir um patamar mínimo indispensável para o nosso funcionamento. Do ponto de vista dos recursos docentes, temos algumas áreas onde ainda estamos confortáveis, que sofrerão com o tempo alguma redução, mas já temos algumas áreas científicas em situação crítica. Não podemos pegar num professor de línguas e colocá-lo a trabalhar em Arqueologia. Mesmo dentro de cada área científica, temos o problema de haver a especificidade de domínios científicos concretos e estamos, co mo digo, numa situação assimétrica. Do ponto de vista da estrutura global, a faculdade adequou-se a estes no vos tempos. Soubemos dar resposta antecipada aos problemas que vinham aí. A faculdade estava, há seis, sete anos, dividida em 21 institutos e hoje tem tudo reunido em quatro departamentos. É mais fácil de gerir e menos oneroso.

Há muitos estudantes estrangeiros a estudar na Faculdade de Letras?
Temos mais estudantes estrangeiros cá do que estudantes nossos no estrangeiro. A razão é simples: uma vez mais crise. A situação difícil das famílias faz com que estas não respondam positivamente ao estímulo de deixar os filhos partirem para uma experiência Erasmus. A procura do programa Erasmus, por parte dos nossos estudantes, diminuiu consideravelmente em relação ao que acon tecia há 10 anos atrás. Inversamente, somos das universidades com maior presença de estudantes estrangeiros no programa Erasmus. Com o Brasil, temos um nível de intercâmbio muito elevado. O nosso ritmo de internacionalização é excelente.

A procura dos cursos de línguas é menor do que era antigamente?
A procura dos cursos de línguas não é tão intensa como há uns anos, devido à crise no mercado de emprego no que respeita ao ensino, mas continuamos a ser procurados por outras razões. Hoje em dia, falar línguas é uma questão incontornável e central no sucesso profissional em qualquer domínio de actividade e há muita gente que nos procura para fazer essa formação sólida.

A investigação também faz parte do dia-a-dia da Faculdade de Letras?
Fazemos muita investigação. Os projectos de que falei são, ao mesmo tempo, investigação na área da saúde e da educação. É uma transferência de saber, a prestação de um serviço à comunidade, mas, ao mesmo tempo, fazemos investigação em Literatura, em História e em Geografia. Os nossos domínios de actividade casam sempre duas coisas: a pedagogia e a investigação.

Relação"excelente" com equipa reitoral

Qual é a relação da faculdade com a actual equipa reitoral?
É uma relação excelente do ponto de vista pessoal e institucional. Não interessa qual o posicionamento de cada um de nós no momento em que o reitor foi eleito. É uma coisa ocasional, que tem lugar no tempo certo e aconteceu no tempo em que aconteceu. A partir do momento em que é eleito, é reitor da Universidade inteira. Nesta faculdade, nomeadamente com as pessoas que a dirigem, há um excelente relacionamento e de grande cooperação institucional e também pessoal. A Universidade deve ser coesa e contribuímos para essa coesão.

O futuro das universidades está em causa?
Encaro com uma certa angústia e apreensão o futuro. Por causa da crise e da nossa própria capacidade de sobrevivência. Se o Governo voltar a aplicar um corte orçamental ao Ensino Superior como aplicou em 2012, as faculdades não têm capacidade de sobreviver. Não é possível. Atingimos já o limiar da sobrevivência.

 
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