facebook small youtube small rss small
PortuguêsEnglish
CRUP
 
As melhores universidades na ponta dos dedos. E grátis
Público   
10 June 2012
Chamaram-lhe "tsunami", "Primavera Árabe", "revolução". Alguns lembraram que a transformação radical provocada pela Internet já tinha chegado à música ou aos media - mas só agora está finalmente a chegar ao ensino. E agora porque estudar em algumas das melhores universidades do mundo - a custo zero - é possível mesmo estando do outro lado do mundo. Basta um computador, acesso à Internet e vontade.

Dois grandes projectos americanos colocaram a palavra "revolução" no tema. Primeiro, no final do ano passado, dois professores da Universidade Stanford - Daphne Koller e Andrew Ng - criaram uma empresa, Coursera, com cursos online, a quem se associaram depois as prestigiadas universidades americanas de Stanford, Michigan, Penn, Princeton, Pensilvânia, Berkeley. Um milhão de pessoas já se inscreveram (top dos países de onde vêm os estudantes: Estados Unidos, Rússia, Índia e Brasil). Em cinco anos, esperam chegar às dezenas de milhões de estudantes.

Depois, mais recentemente foi lançado o edX, uma colaboração entre as universidades Harvard e Massachusetts Institute of Technology (MIT), que também permite a pessoas de todo o mundo "tirar" cursos à distância de um clique - e grátis. Objectivo? Chegar a mil milhões de estudantes. Já houve um primeiro ensaio, com um curso - disciplina ou "cadeira", no modelo português - lançado na Primavera e 120 mil inscritos, mas o edX arranca a sério no período de Outono.

A popularidade imediata não espanta: por exemplo, 93% dos que concorrem a Harvard e 90% dos que concorrem ao MIT não são aceites, e o custo total de um curso nestas duas universidades pode ultrapassar os 200 mil dólares, segundo a revista Forbes. Claro que os novos cursos online não substituem a experiência universitária e muito menos terão o selo de cada universidade individual - terão o selo Coursera ou edX. Mas podem trazer imensas vantagens a quem tem impulsos autodidactas.

O ensino à distância, e através da Internet, não é propriamente novo. O que é novo é estas universidades de elite apostarem milhões de dólares em algo que, à partida, não trará benefícios financeiros, pelo menos imediatos (um investimento de 60 milhões de dólares no caso do edX, 16 milhões de patrocínio até agora no caso do Coursera, que não quis revelar o seu orçamento).

Em termos concretos, a grande diferença destes dois projectos em relação a outros é a criação de uma plataforma tecnológica que agrega aulas de várias das melhores universidades do mundo, pondo à experiência novas técnicas desenhadas especificamente para o ensino online. Tanto um projecto como o outro estão abertos a que outras universidades do mundo utilizem as suas plataformas tecnológicas ou se associem a eles.

Anant Agarwal, presidente do edX, também director do Laboratório de Ciências Computacionais e Inteligência Artificial do MIT, projecta uma revolução no ensino. Não só porque o edX vai levar a tecnologia para a sala de aula real, como também permitirá às universidades abrirem-se a milhões de pessoas que não têm acesso ao ensino de qualidade, diz à 2. "Em muitos sítios do mundo não há pessoas suficientemente treinadas em determinadas áreas. Por exemplo, o edX pode trazer grandes desenvolvimentos em áreas como a saúde pública que, em muitos países, é uma questão de falta de informação/educação. Com o edX podemos treinar pessoas nesta área."

O Coursera e o edX usam métodos de ensino semelhantes: recurso a vídeos, interactividade, feedback, avaliação por computador nos casos em que matéria dada o permite, avaliação pelos pares quando se justifica. Conceitos: aprende-se melhor a praticar exercícios do que a ouvir passivamente um professor a falar. Com recurso a vídeos divididos em partes curtas e testes interactivos pelo meio para ajudar a memorizar a matéria dada, exercícios que permitem saber os resultados imediatamente e uma "comunidade global" que alarga a discussão a estudantes internacionais, o Coursera tem a ambição de vir a mudar muita coisa na sala de aula real.

Através das parcerias entre "as melhores universidades do mundo", o Coursera quer tornar o ensino universitário mais eficaz e acessível, explica o co-fundador Andrew Ng. O "sonho" é que funcione como catalisador de inovação na educação, online e na sala de aula.

Que áreas é que os cursos destas duas plataformas vão abranger? Humanidades, Medicina, Biologia, Ciências Sociais, Matemática, Ciências Computacionais, Economia/Gestão/Finanças no caso do Coursera. No edX as áreas deverão ser semelhantes, mas o programa ainda não está definido, diz o presidente. Esperam ter, pelo menos, cinco cursos quando começarem. De Teoria do Jogo a Estatística, de Poesia Moderna e Contemporânea Americana a Finanças, as cerca de 40 disciplinas no Coursera têm uma duração variável (há umas de 4-5 semanas, outras duram 12 semanas).

Andrew Ng lembra que este projecto traz também vantagens para os alunos das universidades parceiras porque eles podem ouvir as aulas teóricas online, quando lhes der mais jeito, e dedicarem o tempo de universidade e interacção às discussões, projectos e actividades de grupo. Por outro lado, o corpo docente tem acesso a todos os dados e pedagogia usada "num ensino a esta escala", algo "sem precedentes" que irá trazer "oportunidades importantes" para o ensino.

Nem todas as aulas do Coursera darão direito a certificado - "é uma decisão do professor e da universidade" - e a energia e tempo que cada aluno põe no que faz fica ao seu critério, reforça. E isso, como no ensino tradicional, reflecte-se no resultado final: quanto mais investirem, melhor os resultados. A obtenção de certificado no edX exigirá o cumprimento de requisitos, variáveis de curso para curso.

Há também outras expectativas sobre o impacto que estas experiências possam vir a ter no ensino tradicional. Os tempos do professor a falar para estudantes que fazem desenhos nos cadernos à espera que a aula chegue ao fim podem estar a acabar. A mudança que os dois projectos pretendem fazer não é só a de levar o ensino para fora da sala, é também mudar a forma como se ensina e perceber como é que a tecnologia pode ser útil dentro de portas. E desenvolver pesquisa sobre a eficácia do ensino: a tecnologia, esperam, permitirá aferir melhor como e quanto é que os alunos retêm a matéria dada.

No sistema anglo-saxónico, as cadeiras têm duas componentes, a teórica e prática. Nas de teoria - as chamadas lectures - normalmente o professor fala quase de seguida sem ser interrompido. "Há anos que temos este sistema em que os estudantes se encontram numa sala de aula e ouvem um professor a falar, não há muita interacção", diz Anant Agarwal.

Por isso é natural que o número de pessoas a ir às aulas teóricas tenha baixado nos últimos anos, justifica. Depois hás os tradicionais trabalhos de casa para os quais se podem "desenvolver todo o tipo de questões", mas cujo feedback demora algum tempo: "Quando chega, já o aluno se esqueceu do que escreveu. As técnicas online permitem dar feedback instantâneo."

"Sabe de onde vem a ideia de lecture?", pergunta Andrew Ng. "Vem de uma tradição que começou porque havia apenas uma cópia de um livro." Agora não só há milhares de cópias de livros como o professor deixou de ser o único portador de conhecimento e informação. E os professores vão ter a oportunidade de ensinar mais do que 150 mil estudantes por aula, um número que demoraria 250 anos a atingir no ensino ao vivo, lembra.

"A coisa mais revolucionária que estamos a fazer", continua Ng, "é derrubar as barreiras do ensino universitário: já não se trata de quanto dinheiro se tem ou onde se nasceu. Neste momento, a única questão é se se tem vontade de aprender."

 
Partilhar:  Partilhar no Facebook Partilhar no Twitter Partilhar no LinkedIn Partilhar no Google+ Partilhar por e-mail